Mais uma brilhante composição da dupla. A gente não tem o que comentar. Não passem por aqui sem abrir este vídeo.
PARÓDIA - O Zé e o Tatu (Punk Vídeos) escrito em quarta 12 novembro 2008 19:37
ES PAZ OU TIEMPO (Priscila Haydée) (Ex________tensão da Mente!!) escrito em quarta 12 novembro 2008 19:03
es paz ou
tiempo
Priscila
Haydée
se o espaço de tempo
é um espaço no relógio
um passo do ponteiro
o tempo que passo
tem quilômetros
medir as horas a essas horas
conta quanto tempo eu sinto
dentro do vazio desse espaço
quanto tempo em pouco espaço
quanto espaço em muito
enquanto espaçotempo
preciso de um tempo na minha memória
preciso de espaço em mim mesma
porque anda lenta, anda lenta
a volta a volta a volta
daquelas horas rápidas e cumpriiiiidas
a passos de gargalhadas...
ha-ha-ha-ha-ha-ha
que o tico e o teco do relógio
sempre parou para ouvir
Priscila Haydée
outubro de 2008
Taubaté
VERSOS DO QUE VI - Ricardo Shiota (Poesia das esquinas) escrito em quarta 12 novembro 2008 18:57
tive um presente do alvorecer,
daqueles momentos que as estrelas
surgem da negritude do céu azul.
Vi um ponto cintilante aparecer,
se não bastasse,
mais quatro irradiaram.
Era o cruzeiro do sul
nascendo sobre os meus olhos,
repletos de expectativas.
Percepção surpresa,
da coincidência dos mistérios
alentadores
do simples viver
alma ingênua destemida,
ausente de para quês
QUARTO DE PENSÃO - Ulysses Lopes (Pensamentos Urbanos) escrito em quarta 12 novembro 2008 18:52
Quarto de pensão
(Ulysses Lopes)
Foi no inverno de 19., quando o frio e o vento começam a chegar. Eu tinha cerca de uns vinte e três anos, mais ou menos, e a mocidade mesclada à rigidez tomava-me o semblante como a face de toda uma geração. Não era um poeta. Não tinha no sangue nenhum romantismo demente; era sim, acima de tudo, um realista incorrigível. E meu realismo, contudo, muito pouco pareceria verossímil ou concreto diante do malfadado dossel de idéias que infestavam as cabeças daquele tempo de chumbo.
Alugara um quarto de pensão na Visconde de Taunay e pagava minha alimentação e minha sujeira com parcos recursos. Não tinha mulheres, não tinha paixões. Antes disso, tinha sim apenas uma estranha paixão. Sólida como a rocha, real como a eternidade. Era a arqueologia!
O dinheiro geralmente não me sobrava para muitas coisas. O aluguel, os estudos e a alimentação me subtraiam quase que integralmente todo o salário miserável que eu recebia da biblioteca universitária. E mesmo assim, sempre que o desejo de minha paixão incitava-me, não tremia em dispender somas significativas com pesquisa e materiais. Aí decerto reside o meu ledo engano. Não se deve amar nada em demasia neste mundo, nem mesmo a arte ou a ciência!
Era mais ou menos onze e meia da noite quando uma empregada da pensão veio bater à minha porta. Estranhei sobremaneira uma intromissão tão incomum e, antes de atender a porta, confesso-o, senti-me bastante aborrecido.
Abri levemente a porta e, sem mais, dei de cara com um par de olhos escuros e arregalados que me fitavam na penumbra do corredor.
- Desculpe perturbá-lo meu senhor – começou a mulher -, sei que já é bem tarde, mas tem um sujeito que teima em ver o senhor e que o espera impaciente na sala geral.
- Disse o nome? – perguntei-lhe.
- Não senhor. Apenas falou que é seu conhecido e que tem um assunto muito importante pra tratar contigo.
Estranhei bastante aquela visita. O que poderia querer um sujeito àquela hora me procurando na pensão?
Vesti-me depressa e, sem demora, pus-me a descer para a sala geral, no térreo, sempre acompanhado pela empregada, mas ela entrou antes num quarto qualquer e eu prossegui depois sozinho.
Na sala, topei de cara com um antigo conhecido. Seu nome era F. e há muito tempo eu não o via em meus bons dias de vida.
Encontrei-o aflito, quase aos prantos. Falava com rapidez nervosa e descoordenação, e muito pouco pude entendê-lo num primeiro instante. Busquei-lhe um copo de água na cozinha. Aquele jovem tinha pouco mais que uns vinte anos.
- O que você tem? – perguntei-lhe aflito.
- Você precisa vir comigo! – gritou desesperado – Você está correndo muito perigo!
Mortifiquei-me. Contudo, não entendi absolutamente nada e pedi-lhe explicações. Mas ele continuou na mesma. Levantei-me da cadeira em que me sentara e, sacando do bolso de meu casaco um revólver (jamais andava sem ele!) apontei para ele dizendo:
- Vamos lá! Não quero que aconteça nenhuma desgraça, e isso é para seu próprio bem, mas você deve me dizer tudo o que sabe. Deixa de tanta loucura e desembucha, por amor de ti!
F. encarou-me espantado. Não podia crer no que estava acontecendo e por isso tremia de pavor.
- Sabe, - começou ele nervosamente – estive por muito tempo acompanhando o desenvolvimento do seu trabalho e isso ainda me espanta bastante. Você não tem consciência do que são de fato aqueles artefatos de pedra que você trouxe de beira-mar. Você não sabe nada mesmo! Mas que grande burro!... Eu te peço encarecidamente: vem comigo pra um lugar seguro longe daquele teu maldito quarto. Eu sei muito bem do que eu estou falando! Nem você poderia ser mais realista que eu neste momento!
- O que tem no meu quarto? – perguntei-lhe enfaticamente.
- A morte! – respondeu-me – Mas a morte e a destruição, algo muito pior...
Julguei-o louco naquele instante bizarro. Meu ceticismo impugnava toda a minha aflição num sorriso de ironia. Olhei com calma para F. Ele tremeu.
- Você tem que compreender – insistiu mortificado – Ela está a te encarar! Não seja tão tolo! Escuta!
E só pude falar-lhe quase com prazer:
- Ela? Ela está olhando pra você! – e girei o tambor do revólver – Eu tenho seis balas aqui! Uma delas pode te arrebentar os miolos seu bandido!
Ele apenas sorriu. E calmo como um monge, estranhamente calmo, avançou em minha direção com um cigarro entre os dedos.
- Toma! Fuma! Aqui nesta fumaça sua loucura deixará seus sonhos!
Eu tremi. Sua loucura contagiava-me de medo e de raiva. Um instinto cruel inundou-me toda a alma e eu, qual um monstro acuado, mirei-lhe a arma entre os olhos e desferi um disparo. A bala acertou-lhe a testa e ele tombou feito um pacote. Não podia ser assim! Aquilo era muita loucura!
Corri para o meu quarto atropelando os degraus da escada. Lá embaixo, na sala, as pessoas se amontoavam diante do falecido. Entrei no meu quarto, procurei uma maleta que guardara há alguns dias e, encontrando-a, abri-a com um sorriso demente nos lábios, totalmente louco de euforia. Dentro da mala, apenas alguns fragmentos de rocha, contudo, eu não conseguia tirar meus olhos de cima daqueles objetos. Meu pavor era inexplicável ao encará-los. Ouvi então alguns passos apressados na escada. Tentei esconder-me. Pessoas entraram por todos os lados. A porta fora arrombada e logo um par de braços de homem enlaçaram-me o pescoço como uma serpente de Satã. Encarando mais uma vez os fragmentos de pedra vi a face da Morte!
UMA JANELA PARA DENTRO - Lídia Benjamim (PALAVRAS RASGADAS) escrito em domingo 09 novembro 2008 16:02
Uma janela para dentro.
(Lídia Benjamim)
E na paz que antecede a guerra, ele vivia em desassossego. Suas mãos trêmulas, seu olhar vazio, sua boca ácida.
Quando as mãos estão imóveis, o corpo padece.
O sangue frio é o pior conselheiro. São nesses momentos que os pensamentos se tornam atitudes. A vingança fria.
O sangue quente purifica ações.
Ele estava na calma atinente a todo aquele que não tem futuro. Ele decorava todas as suas ações. Todos os seus passos, atos – falhos, pensamentos – inúteis, e vivências – mortas.
Quanto mais analisava seus movimentos, descobria a inconsciência de cada ato. Não é fácil admitir que a vida seja vazia. Pior,é aceitar que não tem sentido.
No entanto, mesmo sendo cruel, é libertador. É como não acreditar em deus. É assustador, mas libertador.
Ele não acreditava em nada.
Não acreditava em suas ações, em sua família, no governo ou nas pessoas. Não concebia mais a idéia do ato seguinte, do destino, do amor.
Na cadeia complexa da humanidade, a única coisa que fazia sentido é que nada tinha razão. Assim sendo, tudo em vão.
Cada pão.
Cada não.
Cada mão.
Em vão.
A poesia não tem vida, a arte está morta. A beleza é o ópio dos homens. Os homens, criaturas que insistem em persistir. Procriação.
Nada de criação.
?
Condenados desde o dia em que nascemos. Para morrer, basta estar vivo. E nada mais.
É simples não-existir-mais.
Ele armou a fogueira e queimou toda racionalidade. “Queimem os livros”, dizia. “A humanidade não precisa da ‘razão’. Ela não serviu de nada”.

